Depoimentos

Depoimentos sobre Eurícledes Formiga

A admiração de amigos por Formiga

Sobre Formiga, quando publicou “As Rosas Estão Abertas”, escreveu o ilustre e saudoso poeta e amigo:

“- Esta poesia, clara e espontânea, ágil e musical, brota de um coração irrequieto, trefegamente deslumbrado com o espetáculo do Mundo. Coração lírico e ingênuo, búzio sensível e harmonioso, onde ressoa, de contínuo, com aparatos de festa, o encantamento da infância. Coração errante e simples, de inconsequente marujo, fascinado por todas as ilhas, sobretudo aquelas que não existem”.
Cleômenes Campos

“…Formiga, o grande poeta de minha maior admiração e melhor afeto.”
Guilherme de Almeida – São Paulo – 1956

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Discurso do senador Arthur Virgílio Filho sobre o poeta Eurícledes Formiga

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“…De fato é um “monstro de talento” o poeta e declamador Eurícledes Formiga, paraibano de quatro costados, aventureiro das altas esferas da fantasia, milionário da rima. É uma Formiga que canta. Os versos fluem de seus lábios com a suavidade embaladora da água corrente dos arroios murmurantes. Sua palavra fácil, mágica pelo esplendor, fascinante pelo colorido, elevada pelo ritmo, enternecedora pela força emocional, transporta-nos para mundos ideais de azulescências plenas, de resplendores eternos de eterna beleza.
Faz versos como quem respira – naturalmente – sem nenhum esforço. A sua inspiração é espontânea e permanente. A sua linguagem é essencialmente poética, mesmo quando trata de coisas triviais.”
Mario Quintana – Jornal “A Gazeta”- 10/01/53

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“…Coração errante e simples, de inconseqüente marujo, fascinado por todas as ilhas, sobretudo aquelas que não existem…
Uma das palavras que mais ostensivamente aparecem na gíria de hoje é “fábula”. Ouvimos constantemente: Fulano é uma fábula. Pois fábula, de verdade, é esse Fabuloso Eurícledes Formiga. É, portanto, a única cigarra, mas Cigarra legítima, como vêem, que anda por aí, modestamente, a dizer-se FORMIGA !”
Cleômenes Campos – São Paulo – 1968

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“…Eurícledes Formiga, cuja poesia trovadoresca e alegre é uma atordoante festa de imagens e de ritmos, é uma das mais genuínas expressões poéticas que tenho conhecido.”
Judas Isgorogota – São Paulo – 1968 

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“…Há vinte anos Eurícledes Formiga inundou São Paulo com a sonoridade de seus versos coloridos. Jovem, ingênuo e puro, era a explosão do talento nordestino que, nele, teve a disciplina da melhor técnica poética. Formiga é um desses. Felizes daqueles que podem ouví-lo, aqui e agora.”
Saulo Ramos – São Paulo – 1972

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“…Eurícledes Formiga, navegando seu barco, sem muita preocupação, sem invenção nenhuma. Ele apenas conduz a poesia e é conduzido por ela, por esses caminhos de glória do homem, um caminho por muitos desacreditado, mas que existe, como quer provar o Formiga.”
Àlvaro de Faria – São Paulo – 1972

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“…Formiga é cigarra que nasceu cantando. Seus versos brotam com sabor de água de fonte. Possesso de ritmos e de mensagens aurorais anda pelo mundo a espalhar beleza e a semear amor. Trovou pelo Brasil inteiro, de vila em vila, de cidade em cidade, de coração em coração.”
Paulo Bomfim – São Paulo – 1972

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“…Eurícledes Formiga é poeta, poeta de verdade. É desses que a mão de Deus tocou com o Dom gratuito da inspiração. Nele se confirma, de modo irrefutável, o velho axioma: poeta nascitur, orator fit. Porque o rouxinol é rouxinol e o pardal é pardal ? Simplesmente porque Deus os fez assim. Formiga nasceu para a poesia assim como o rouxinol para cantar.”
Mons. Primo Vieira – São Paulo – 1978

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“…Eurícledes Formiga, artífice mestre no ofício da poesia, incrusta, como um ourives, suas jóias líricas em sonetos atuais e vivos. Não importa a fôrma. Não queremos apenas versos. O que esperamos dos verdadeiros poetas é poesia. É o que nos oferta Eurícledes Formiga no seu Chão de Oferta…”.
Menotti Del Picchia – São Paulo – 1978

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Eurícledes Formiga: O poeta, o irmão, o amigo

Ao sermos apresentados, através da amizade de nossos filhos, senti um reencontro de encarnação passada. Conheci o Poeta Formiga, Annabel, sua esposa e seus filhos Miguel, Quito e Fafá. Através da Doutrina Espírita se consolidou a nossa amizade e de nossas famílias.

Verifiquei, então, o Grande Poeta que era e ainda é o nosso Amigo Formiga, conhecido em todas as rodas intelectuais, não só mostrando a sua exuberante Poesia como divertindo e unindo os amigos e corações ao seu derredor, pontificando o seu carisma de Poeta que é, porque continua imortal entre todos aqueles que o conheceram, principalmente entre nós, os irmãos espíritas.

Partiu porque o Senhor o chamou, necessário na Espiritualidade, trabalhando e ajudando a todos os irmãos que aqui ficaram, e os que partem sendo recebidos pelo Irmão Formiga, o Poeta do Senhor!
Antonio Navacinsk – São Paulo – 1999

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Como um artista que sou,
Através do meu violão,
Procuro os melhores acordes
Prá compor uma canção.

Porém, eu fico pensando
Que dificilmente consiga
Expressar em suas cordas
A saudade do amigo Formiga!
Paulinho Nogueira – São Paulo – 1999

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Há criaturas que passam pela vida e deixam de maneira viva a marca indelével da sua personalidade. Eurícledes Formiga foi um deles. Quem há que possa no passar do tempo definí-lo em memória. Impressionante memorialista. Formiga, poeta versátil, capaz de recitar versos seus e de outros e repetí-los em seguida de trás para diante. Espiritualista convicto, visualizava o amanhã com a mesma fé com que vivia. A vida é uma surpresa. Vivê-la, contudo, é um privilégio que nem a todos é dado. Reverenciá-la só é dado a aqueles que por ela passaram deixando a lembrança que vira saudade, num vazio imenso que fica, não sai!
Orlando Villas Boas – São Paulo – 1999

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Minha convivência com meu amado e querido irmão fraterno Euricledes Formiga, vem marcada desde 1953 quando eu tinha um programa na Rádio Record de São Paulo, onde havia sido contratado na época e neste programa falava sobre Nordeste, baiões, cantorias e cantadores. Ele coincidentemente tinha uma coluna no Jornal A Folha, escrevendo sobre cantadores, certamente ouvia sempre o meu programa, pois difundíamos juntamente o mesmo assunto, sobre Cultura Popular, que não tinha muita divulgação na mídia por estes tempos. Desafiou-me um dia contrariando uma informação que eu dera sobre uma célebre cantoria entre Zé Pretinho do Trucum com o Cego Aderaldo, um trava língua: “Quem a paca cara compra, paca cara pagará”, etc. Li a sua coluna e começamos um bate e rebate sobre a autenticidade da tal cantoria, ele em sua coluna e eu em meu programa e nessa época a coisa pegou fogo através da imprensa, rádio, TV.

Eu fazia também um programa semanal no canal 7, TV Record. Um amigo provocou um encontro nosso em sua casa para que terminasse aquela discussão. Era desejo tanto meu como dele. Terminado o meu programa na TV, um jantar logo depois e direto para o tal encontro. Pois bem, eu houvera dito nesta noite, um longo poema meu sobre a seca, as coisas, enfim sobre o sertão e fazia em primeira audição. Quando cheguei à casa do amigo para o encontro, ele ainda não havia chegado, quando enfim apareceu, antes de um alegre e fraternal abraço, foi dizendo o meu poema todo de cór e salteado e afirmando que aquele poema era dele. Eu confesso que fiquei numa enorme confusão, cuja explicação é indivisível. Acalmada as coisas, descobri mais tarde que aquele cara extraordinário tinha esta capacidade fora do comum de guardar, decorar e fotografar em sua memória até em discurso inteiro de dez páginas e reproduzir imediatamente tintim por tintim, tudo que ele ouvisse  ou lêsse. Mais tarde me revelava que a provocação em sua coluna tinha exatamente o propósito de chamar a atenção do público para o trabalho, que de certo modo estaríamos prestando sobre a difusão da cultura popular, falando sobre os nossos irmãos cantadores e violeiros do Nordeste.

Esta amizade floresceu, criou raízes profundas no enxerto de nossa sensibilidade, encontros permanentes, recitais, saraus, festas, cantorias, e permaneceu até o dia de sua morte. Acompanhei seu namoro com Anabel, seu casamento, seus filhos nasceram, Miguel, Fafá e o Quito. E até hoje eu me babo todo de contente quando eles me chamam de tio Luiz.

Formiga foi um dos poetas mais incríveis e inspirados que eu conheci até hoje, tenho e guardo dele, os melhores momentos da minha vida, registrados em centenas de episódios, flagrantes vividos dessa convivência onde aprendi, reparti, multiplicamos juntos a graça da importância fantástica e divina do que significa em nossa vida, a gente ter um amigo.

“A amizade é o instinto dos homens. O amigo constitui a doçura da existência dos lutadores, o estímulo para vencer as agruras e dissabores, a força propulsora das idéias, escolas e seitas. A simpatia e a amizade são as formas mais queridas dos seres”. Quem disse isso foi Austragésilo. Êta cabra bom esse Austragésilo.
Luiz Vieira – São Paulo – 1999

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UM TIPO INESQUECÍVEL
Um homem que viveu da memória e do poder encantado da palavra também deixa lembranças.

Era um homem atarracado. Uma voz grossa, rouca, cavernosa. Tinha um rosto nazareno. Quem sabia de seu berço sertanejo imaginava ascendências batavas para explicar a cor azul em seus olhos de poeta. Um poeta à antiga, de versos metrificados e rimados, fora de moda, como estes:

“Componho ternas baladas,
acendo estrelas em mim!
Renasço e me transfiguro,
quando o teu nome murmuro,
no enlevo de amar-te assim!”

Carregava um nome estranho, Eurícledes, e tinha um irmão também proparoxítono, Eurípedes. Mas, mesmo com tantas características assim, Formiga chamava mesmo a atenção pela memória: era capaz de produzir tudo o que ouvia com uma precisão surpreendente para quem não o conhecesse. Com seu jeito pitoresco de contador de “causos” do sertão, dizia que já tinha feito de sua memória prodigiosa uma profissão. Andava pelo interior, como um mascate da palavra, instalava-se numa pensão qualquer e, na casa paroquial ou num cine-teatro freqüentado pela fina flor da elite local, ouvia com atenção alguém lendo um texto. Conseguia, por maior que fosse o texto, reproduzi-lo inteiro, sem erros, com as pausas que a pontuação exigia. Aplausos. Depois recitava o texto inteiro, palavra por palavra, de trás para diante. Aplausos mais febris. Pedia, então, que alguém numerasse cada palavra. Da platéia gritava-se um número qualquer, imediatamente ele associava o número à palavra e não errava nunca. Era, então, que o reproduzido cine-teatro só faltava desabar com as palmas. Um sorriso enlevado completava o triunfo de Eurícledes Formiga, o poeta desconhecido, que conseguiu editar seus repentes de As Rosas Estão Abertas pela diminuta Editora Clube dos Estados, em 1968.

Na cidade grande, fosse Brasília, a nova capital, fosse São Paulo, eldorado dos nordestinos, Formiga ganhou status profissional. Foi jornalista. Prestidigitador da palavra, não teve dificuldades em redigir reportagens, artigos. Depois, cedendo à tentação da raça, fez-se funcionário público. Morreu quando deixou a chefia da Justiça Federal, no tempo em que ela ainda funcionava na Praça da República, ali em frente ao Instituto Caetano de Campos.

Em momento algum, contudo, Formiga deixou de lado sua vocação de registrar os sons, uma vocação que deve ter vindo do atraso tecnológico da região onde nasceu, o sertão do Rio do Peixe, uma das zonas mais áridas da Paraíba do Norte. Afinal, a exemplo da Grécia antiga, onde o gênio de Homero foi guardado graças a memória privilegiada de alguns superdotados e às suas construções rítmicas geniais, também no interior do nordeste se veneram as memórias privilegiadas. Como nas tribos primitivas, que preservam suas lembranças nas palavras de seus aedos, o sertão se conta pela máquina gravadora guardada na cabeça de muitos de seus filhos mais humildes.

Em Belém do Rio do Peixe, hoje Uiraúna, Dedé Cego é capaz de recitar os versos que José de Anchieta escreveu nas areias de Ubatuba em homenagem à Virgem Maria. Também no sertão da paraíba, em Patos de Espinharas, Lorota, um jovem estudante de Direito, reproduz, com êxito, entre talagadas de cachaça Rainha os longos e inflamados discursos de seu ídolo, o advogado Raimundo Asfora (aquele que morreu misteriosamente em Campina Grande, antes de assumir o cargo de Vice-Governador do Estado). E, para que ninguém o acusasse de favoritismo, seguia Asfora, mas também citava o discurso da acusação e julgamentos inteiros, desde que neles trabalhasse o promotor Agnelo Amorim, seu outro ídolo.

Mas a personagem aqui não é Lorota, é Formiga. E Formiga deliciava seus amigos jornalistas no Clubinho – um Bar no prédio do IAB – assustando um jovem poeta baiano que acabava de chegar a São Paulo e derramava seus versos condoreiros pelas mesas. Acusando-o de plágio, Formiga reproduziu o poema, palavra por palavra, e só convenceu o poeta ofendido de que jamais lera ou ouvira seu poema quando se mostrou capaz de recitá-lo da última à primeira palavra, sem erros, de trás para frente.

Este tipo inesquecível um dia carregou este Zé que escreve neste canto de página a conhecer o jornalista Cláudio Abramo, na redação da Folha de S. Paulo, ainda com as paredes despidas pastilhas. Este Zé, nasceu no município de Belém, vizinho à São João do Rio do Peixe, hoje Antenor Navarro, na Paraíba, não seria um jornalista, não estaria aqui, não fosse por seu interesse evidente, que brilhava no azul do seu olho esquerdo. E, graças à reportagem de Madame Xavier, vulgo Marisa, no Jornal da Tarde, rebrilha a memória de um homem que cativou platéias porque não esquecia e porque venerava a arte de colecionar e juntar palavras.

José Nêumanne Pinto
Coluna do Zé  – Caderno 2 – O ESTADO DE SÃO PAULO – 26/02/1988