Seus recitais e sua memória prodigiosa
Ainda descrevendo suas peculiaridades é de se evidenciar o potencial estrondoso que Eurícledes Formiga possuía em sua memória. Ele mesmo afirmava tratar-se de um fenômeno de memória fotográfica. Pelo Brasil afora, desvinculou-se da família, na adolescência e, por conta de tantas andanças, enfrentou toda a sorte de dificuldades no início de sua jornada. Formiga vivia dos recitais de poesia e testes de memória, de cidade em cidade, cruzando as fronteiras dos estados brasileiros. Foi um poeta que viveu exclusivamente de poesia, a sua profissão, o seu ganha-pão, seu modo de vida. Dessa maneira tornou-se popular em sua época. O dinheiro que ganhava era igualmente repartido para sua sobrevivência e para o sustento da família no sertão paraibano, aos cuidados de sua mãe Ana Formiga Ferreira e de seus irmãos.
Com demasiado talento conquistou o seu espaço, formando boas amizades que admiravam o dom e a arte do vate e jovem nordestino. Era levado para os recitais que marcavam para ele, em todos os lugares por onde passava.
Eurícledes Formiga foi motivo de notas literárias dos mais diversos jornais do País, como uma revelação da poesia brasileira, merecendo comentários dos mais altos nomes da nossa literatura. Falava em público com sentimento e eloqüência e a poesia lírica soava como música, tamanha perfeição em seus estilos variados, na metrificação e na regra da poesia contemporânea. Para ilustrar suas apresentações mesclava com os versos os malabarismos da memória. Pedia um mote para o público e compunha um belo poema de improviso, fechando a estrutura poética elaborada em um segundo com o mote apresentado. Mais que depressa voltava seu poema improvisado de trás para frente, até o verso inicial.
Formiga ainda solicitava que alguém anotasse o poema em uma folha de papel ou em um quadro negro. Numerava palavra por palavra. A quem dizia a palavra, Formiga logo dizia o número correspondente, e a quem dizia o número, repetia a palavra. O assombro era geral. Em seguida brincava com os versos como uma criança que conhece o seu brinquedo, falando a primeira palavra com a última, a segunda com a penúltima, a terceira com a antepenúltima, até fechar no meio. Não nos esqueçamos de que a poesia em teste era a poesia feita, de improviso. Aplaudido e ovacionado, dava seguimento ao recital declamando seus poemas com brilhantismo e sentimento. Vez por outra, intercalava outros testes com números, efetuando somas, divisões, subtrações e cálculos matemáticos, demonstrando uma memória impressionante, sem igual. Era um verdadeiro show de talento.
Eurícledes Formiga viveu assim muitos anos, até se tornar jornalista profissional quando de sua chegada em São Paulo, no final do ano de 1951, mas sem abandonar nunca os seus recitais, que se tornaram saudosos para esse grande poeta da Paraíba.



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