O Perserverança

 

Um médium ao encontro dos espíritos.

 

A mediunidade, muito embora ignorada, sempre esteve presente na vida de Eurícledes Formiga.

Em 1958 procurou a Federação Espírita do Estado de São Paulo para tentar conhecer os fenômenos que se apresentavam consigo, mas malgrado às advertências, não seria ainda desta vez que o chamamento lhe tocaria o coração. Na década de 60, residindo em Brasília, Formiga passou a freqüentar esporadicamente a Comunhão Espírita Cristã, notadamente quando os fenômenos mediúnicos se acentuavam, lá recebendo orientação do dirigente, Viana Ataualpa Barbosa.

Em 1968, em São Paulo, pela primeira vez, Formiga caiu em transe mediúnico inconsciente e transmitiu a bela mensagem psicofônica falando sobre o Evangelho, o qual nunca houvera lido. Sua esposa Annabel, que também desconhecia os processos mediúnicos, impressionou-se, mas sentia intuitivamente tratar-se de uma personalidade que não seu marido e que deveria ser um espírito elevado pelo teor da comunicação. O episódio voltou a repetir-se com assiduidade, agora com outros tipos de Espíritos, inclusive obsessores, mas por último sempre comparecia o Espírito que se incorporou pela primeira vez e que soube-se, posteriormente, tratar-se de Frei Martinho, um frade franciscano que viveu no Nordeste em sua última encarnação. Seu reconhecimento era fácil, pois sempre apresentava-se com o lema : “- A treva nunca foi barreira para a luz que vem do Senhor !”.

Formiga quando voltava a si não acreditava nos relatos da esposa e tinha a impressão apenas que adormecera. Estava relutante quanto à aceitação do fenômeno, mas mesmo assim concordou em frequentar a Escola de Médiuns da Federação Espírita do Estado de São Paulo.

Já um pouco mais orientada, Annabel passou a conversar e pedir orientação aos Espíritos que incorporavam em Formiga, como ocorria com o pai do médium, José Ferreira de Sá, e ao Frei Martinho. Este último, um dia lhe disse enfático, quando ela lhe perguntou o que poderia fazer para que Formiga acreditasse nos fenômenos que ocorria com ele : “- Esta mão pode escrever. Dê-me papel e lápis.” Em seguida escreveu :

“O fruto bom é da árvore plantada em chão de fé. Orai por ele e por esta mão pesada, pá cavadora em Terra de paz. Orai em função de uma alma boa, mas que deu muito pouco do que foi confiado”.

Voltando a si, Formiga ainda não acreditou e interpretou o fato como sendo alucinação de sua parte.

Nesta fase, sua esposa nunca esqueceu dos relatos comoventes de seu pai que, incorporado no próprio Formiga, contava que no Plano Espiritual, desdobrado, durante o sono, o Espírito do filho se recordava dos compromissos assumidos com a mediunidade antes de reencarnar-se e suplicava para que os mentores o auxiliassem a encarar a tarefa e, caso não o fizesse, que eles o levassem deste Plano para que a queda não fosse maior.

Quando voltava a si, Formiga permanecia incrédulo quanto às comunicações de que ele próprio era intermediário, mas cada vez mais estas chamavam-lhe à reflexão. Um dia telefonou de São Paulo para Salvador e marcou uma entrevista com Divaldo Pereira Franco. Tomou o primeiro avião, instalou-se no Hotel, e foi à “Mansão do Caminho” avistar-se com o médium baiano. Lá chegando, Divaldo, que estava abrindo a porta do Centro, antes de saudá-lo, lhe disse : “- Você veio saber se o frade existe ? Então, Formiga, pode acreditar, ele existe sim. É Frei Martinho, um franciscano que viveu e ficou famoso no Nordeste por sua obra apostolar !”.

Naquela noite ao, ao tomar parte da reunião evangélica, recebeu, ainda, bela mensagem psicografada do Espírito Joanna de Angelis, exortando-o à tarefa mediúnica.

E foi nesta mesma época que os Espíritos sensibilizavam a mediunidade de seu filho mais jovem, Marcus Vinícius, o Quito, quando este passou a demonstrar os mesmos fenômenos, ora incorporado com terrível agressividade, em que cinco adultos não tinham controle sobre ele, ora qual criança sensível em sua vidência, detalhando quadros e aparições das mais diversas. E a sempre esposa e companheira Annabel, na esperança da aceitação de Formiga, tentava sensibilizá-lo ainda mais : “- Veja só, agora com seu filho !”

Seu próximo passo foi visitar a Chico Xavier, alguém a quem sempre admirou e sentia profundo respeito, mesmo antes de conhecer a Doutrina Espírita. Não conhecendo a ninguém no Grupo Espírita da Prece, em Uberaba, Formiga estava na fila para aquele que seria seu primeiro contato com o Chico, quando este, para tanto espanto, abraça-o afetuosamente e lhe diz, como se já fosse íntimo seu : “- Formiguinha de luz, há dez anos te esperava !”

Mais do que as lágrimas que rolavam pela face, este episódio foi o que faltava para que Formiga se engajasse definitivamente às tarefas espíritas.

De 1969 a 1972 o casal freqüentou a Federação e neste ano foi encaminhado para o “Centro Espírita Perseverança”, localizado na Vila Santa Clara, e sob a orientação de Guiomar Albanesi, Presidente, Formiga deixou manifestar-se belíssima mediunidade que proporcionou à bibliografia espírita ótimas obras, e que ainda continua proporcionando, apesar de seu desencarne a 09 de Maio do ano de 1983.

Em 1973 foi a primeira vez que Formiga sentou-se à mesa no “Perseverança” para psicografia e, em 1975, como ele próprio dizia, os poetas e cantadores já começavam a fazer fila para transmitir seus versos através de seu lápis mediúnico. Aliás, sobre este fato, Formiga, consagrado poeta e literato, sempre confidenciava a seu círculo íntimo que, muito embora sua própria carreira literária havia sido relegada a segundo Plano, sentia-se tão contente em poder ser o instrumento dos poetas que viviam no Plano Espiritual e de compartilhar da felicidade destes, que por si só esta recompensa era maior do que outra láurea que pudesse receber com suas criações.


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